SE JÁ SABEMOS QUE O EU É FLUIDO, PORQUE CONTINUAMOS A TENTAR TRANSFORMAR-NOS EM ALGO SÓLIDO?
Há doze anos atrás, estava a estudar Belas-Artes na Central Saint Martins e interessava-me pela ideia de que a identidade talvez não seja tão singular como tendemos a imaginar: de que talvez não exista um eu fixo alojado algures dentro de nós, à espera de ser conhecido. Talvez exista, em vez disso, algo mais fluido: eus que surgem e desaparecem, que ganham forma em relação ao tempo, ao contexto, à memória e uns aos outros.
Na altura, fiz um projeto chamado Photography of Nothing. A ideia nasceu de uma palestra sobre o silêncio dada por Hannah Rickards, onde ouvi pela primeira vez I Am Sitting in a Room, de Alvin Lucier. Nessa peça, Lucier grava-se a dizer algumas frases, depois reproduz essa gravação na sala e volta a gravá-la. E outra vez. E outra vez. A cada repetição, as qualidades da sala tornam-se mais audíveis. As palavras vão-se dissolvendo, até a gravação passar a ser dominada pelos próprios tons e harmónicos da sala.
Fiquei fascinada com o que acontece quando se repete algo tantas vezes que deixa de ser o que era.
Para o Photography of Nothing, transpus este processo para imagens. Pegava numa imagem, aplicava-lhe efeitos de som (delay, reverb, distorção), guardava-a e voltava a processar o resultado. E outra vez. Cada iteração afastava-se mais do original. As margens amoleciam. A informação desaparecia. Os pixéis começavam a sangrar uns para os outros. Por fim, a imagem ficava tão degradada que já não podia ser reconhecida.
Já não havia uma imagem original para olhar. E, ainda assim, permanecia ali qualquer coisa.
Acabei agora a minha formação em psicoterapia transpessoal, e acho engraçado, e um pouco curioso, que aquilo que eu procurava através da arte aos vinte e dois anos me tenha seguido por todo este caminho até à psicologia. Porque já não acredito que estivesse a testemunhar um processo de desintegração. Mas um processo de transformação, do vir-a-ser.
Photography of Nothing, Zoé Nguyen (aka Rita C. Silva), 2012
Estou dentro do mundo do desenvolvimento pessoal há tempo suficiente para reparar numa contradição. Parecemos compreender, intelectualmente, que o eu é fluido. Mudamos, crescemos, não somos quem fomos. As relações mudam-nos. A dor muda-nos. Sermos pais muda-nos. O corpo muda, o cérebro muda, as circunstâncias mudam, os desejos mudam.
E, no entanto, no momento em que entramos num processo terapêutico, podemos começar a comportar-nos como se, algures por baixo de tudo isto, existisse um eu único e sólido à espera de ser descoberto. Falamos em descobrir quem realmente somos, em regressar ao nosso verdadeiro eu, em encontrar o nosso núcleo, em descobrir a nossa essência, como se o eu fosse um objeto perdido à espera de ser recuperado. A cura pode começar a soar a escavação: como se a pessoa real estivesse soterrada por baixo de tudo o que lhe aconteceu, e, se cavarmos com profundidade suficiente, chegássemos finalmente ao original.
Sei disto porque também fiz a minha parte de escavação. Não parava de procurar a coisa por baixo da coisa. O núcleo por baixo da personalidade. A verdade por trás da adaptação. O eu por baixo dos eus. E, no fim, não encontrei nada, só um enorme vazio. A certa altura comecei a perguntar-me se o problema não seria eu não ter cavado o suficiente, mas simplesmente não haver objeto nenhum à espera no fundo.
Núcleo. Essência. Verdadeiro eu. Encontra-te.
Repara no que estas palavras fazem. Cada uma transforma silenciosamente um processo numa coisa. São substantivos, e os substantivos levam-nos a caçar coisas: um objeto fixo que podemos escavar, erguer contra a luz e dizer: Ali. Sou eu, o verdadeiro eu. Finalmente. Encontrei-o. Está feito.
Mas e se não há um feito?
E se o eu não é aquilo que somos, mas o modo como nos tornamos? E se tem forma sem ter uma forma final?
E se a continuidade não exige permanência?
Se congelarmos uma melodia para a inspecionar, não encontramos a sua essência. Encontramos silêncio. O ser inteiro de uma melodia está no seu movimento. Nunca diríamos que uma canção é menos real do que uma pedra por não a conseguirmos manter imóvel. É simplesmente um tipo diferente de real, um tipo de real mais vivo. Acho que somos assim.
Não há original, mas há uma origem. Há história. Há padrões, memórias, feridas, relações, heranças, escolhas. Há uma forma particular que emergiu de tudo o que nos aconteceu. Essa forma é real, e é nossa. Só não é o fim da história. O eu está vivo; não é um cadáver. Continuamos a tentar fazer de nós mesmos uma fotografia, quando talvez sejamos uma peça de música. Não se chega a uma melodia. Só se pode tocá-la.
Então, se a fluidez do eu é tão fácil de apreender como ideia, porque é que continuamos a organizar as nossas vidas, e sobretudo a nossa cura, como se isso não fosse verdadeiro?
A ideia de um eu fixo e autónomo tem uma história. Não surgiu do nada. Diferentes tradições imaginaram o eu de maneiras muito diversas, mas grande parte do pensamento ocidental moderno privilegiou um tipo de sujeito em particular: singular, idêntico a si mesmo, racional, separado. Um sujeito capaz de se colocar à parte do mundo e de se conhecer com clareza, do mesmo modo que se conhece um objeto pousado numa mesa.
Não há nada de errado com essas qualidades em si. Precisamos de limites. Precisamos de agência. Precisamos de continuidade suficiente para fazer uma promessa e sermos responsabilizados por ela. Mas estas qualidades nem sempre foram culturalmente neutras, e eu tenho-me interessado pela história de género que está por baixo delas. Não porque o eu se possa reduzir a uma questão de género, mas porque essa história torna visível algo que, de outro modo, poderíamos confundir com puro senso comum.
Nesta herança, as qualidades do sujeito próprio, a unidade, a autonomia, a razão, a posse de si, foram há muito codificadas como masculinas. Os seus opostos, a multiplicidade, a dependência, a permeabilidade, a mutabilidade, foram colocados do lado do feminino e tratados como o termo menor: aquilo a conter, a corrigir ou a explicar. Não quero dizer que estas qualidades pertençam aos homens ou às mulheres. Quero dizer que a nossa tradição as arranjou repetidamente como se pertencessem, e que, nesse arranjo, a mulher aparece não como outro tipo de sujeito, mas como o outro do sujeito. Relação em vez de autonomia. Diferença em vez de identidade. O chão contra o qual um eu "real" se define.
Sinto a pressão dessa história na minha própria vida. A forma que tantas vezes me pediram que tomasse era singular, consistente, estável, de contornos nítidos. Foi cortada de um tecido que nunca me assentou bem. Aquilo que sou move-se mais como água do que como pedra, e entregaram-me uma linguagem feita para a pedra e pediram-me que descrevesse o mar.
Ler Luce Irigaray deu-me uma forma de nomear o que essa pressão realmente é. A sua sugestão mais perturbadora não é apenas que as mulheres foram deixadas de fora de certos conceitos, como se os conceitos estivessem certos e só a lista de convidados estivesse errada. É que os próprios conceitos podem carregar pressupostos sobre o que conta como um sujeito próprio. Se as nossas próprias formas de pensar foram construídas em torno daquilo que se pode separar, definir e manter à distância, então a fluidez torna-se quase impossível de pensar sem a transformar, silenciosamente, de novo num objeto. Mesmo quando tentamos abrir espaço para a relação, o embodiment ou a mudança, podemos continuar a pedir-lhes que entrem numa sala cuja gramática foi feita para coisas que ficam imóveis.
E ouço essa mesma gramática dentro da linguagem do eu. Até a nossa conversa sobre o tornar-se continua a resvalar para uma coisa acabada: um eu que possa, por fim, ser conhecido, seguro, nomeado. O "verdadeiro eu" acaba por ser o velho sujeito ideal com um rosto mais suave. Singular. Idêntico a si mesmo. Completo.

Nada disto significa que a resposta seja dissolvermo-nos na fluidez. Se rejeitarmos a solidez por completo, podemos simplesmente criar um novo ideal: a pessoa infinitamente adaptável, sempre aberta, fluida e desapegada.
Um ser humano precisa de alguma estrutura. Precisamos de continuidade. Precisamos de memória. Precisamos de algum sentido de onde uma pessoa acaba e outra começa. Precisamos de estabilidade suficiente para nos reconhecermos ao longo do tempo, para cumprir uma promessa, para cuidar de alguém amanhã porque cuidámos dele hoje. Um eu sem forma alguma não seria libertado. Seria apenas um eu sem amparo.
Portanto, a questão não é se devemos ter estrutura. É que tipo de estrutura queremos e de que precisamos para continuar a tornar-nos. Uma estrutura rígida cria estabilidade resistindo à mudança. Uma estrutura viva cria estabilidade sendo capaz de mudar sem perder toda a coerência. Uma árvore tem estrutura, mas a sua estrutura não é fixa e depois defendida. Cresce. Verga. Deixa cair. Responde ao seu meio. A sua forma está continuamente a fazer-se. É este o tipo de estrutura que tento cultivar em mim, e no trabalho terapêutico que faço: limites que possam respirar; uma identidade sustentada com leveza suficiente para que a experiência ainda a possa mudar; continuidade suficiente para permanecer presente enquanto aquilo que somos continua a mover-se.
Isto dá à fluidez um limite necessário; mantém-na honesta, em vez de a deixar tornar-se um pretexto. Ser um processo não significa que não sejamos responsáveis pelo que fazemos, como se fôssemos uma pessoa completamente diferente todas as manhãs. Na verdade, é a continuidade que faz a mudança importar. É ela que nos permite aprender, reparar, pedir desculpa e escolher de outra maneira. Não tenho de estar permanentemente fixa para ser responsável. Posso estar a mudar e ainda assim ser responsável pela pessoa em que me estou a tornar.
Talvez seja em parte por isto que a mudança e a fluidez nos assustam. Se não há um núcleo fixo, não há garantia final de que sei quem sou, e então não posso saber de antemão quem me tornarei. Se posso mudar, também me posso surpreender. Posso perder-me. Posso deixar para trás uma vida que outrora quis e tornar-me alguém que a minha antiga identidade não reconheceria.
Por isso agarramo-nos a objetos, porque parecem seguros. Se posso dizer sou ansiosa, ou sou introvertida, ou isto é o meu trauma central, troco o horizonte aberto e assustador do vir-a-ser pela previsibilidade de um rótulo. Até uma identidade dolorosa pode parecer mais segura do que a incerteza.
A liberdade da fluidez e o terror da fluidez são, de certo modo, a mesma coisa. Queremos ser livres para nos tornarmos alguém novo, ao mesmo tempo que queremos saber que algo nos há de manter inteiros enquanto o fazemos.
É por isto que a linguagem do "verdadeiro eu" é tão sedutora. Promete as duas coisas: podes mudar, diz, e ainda assim chegar à única pessoa que sempre estiveste destinada a ser.
Reparo nisto com mais clareza sempre que o eu está a ser vendido. A transformação é muito mais fácil de vender quando vem com um ponto de chegada prometido, um eu acabado a que um dia chegarás e que poderás guardar. O que não se vende tão facilmente é a verdade de que o tornar-se não se resolve, de que não há uma versão final à espera, e de que vais ter de continuar a estar lá para ti para o resto da tua vida. E isto não é um fracasso. É o que significa estar vivo. Aquilo que nos mantém inteiros pode muito bem ser a nossa capacidade de relação, de resposta, de continuidade através da mudança.
O modo como imaginamos o eu decide, sem darmos por isso, como imaginamos tudo o que lhe acontece, incluindo aquilo que corre mal. Se o eu é um objeto perdido, então o sofrimento é a distância a ele e a cura é a viagem de regresso. Vale por isso a pena fazer a pergunta diretamente: se o eu não é um objeto perdido, então o que é o sofrimento?
Passei a pensar que algumas formas de sofrimento psicológico podem ser entendidas como bloqueio. Não quero dizer que todo o sofrimento seja patologia, nem que toda a experiência dolorosa precise de ser transformada. A dor, a incerteza, a solidão e a dor existencial não são necessariamente problemas a resolver. Por vezes o sofrimento é uma resposta apropriada a algo difícil ou irredutivelmente humano. O que quero dizer é que, por vezes, um processo vivo perde a sua capacidade de se mover. Algo em nós que outrora respondia, outrora se adaptava, continua a correr a resposta antiga muito depois de as condições terem mudado. Pode ser um padrão protetor que se torna restritivo. Um sentimento que foi interrompido e nunca chegou a percorrer todo o seu caminho. Uma identidade que se organizou de forma tão apertada em torno de uma única adaptação que já não deixa entrar nada de novo. Uma forma de nos relacionarmos que já não nos serve. Em cada caso, o problema pode não ser estarmos desligados do nosso eu "real", mas algo em nós ter-se tornado rígido.
De uma perspetiva somática, a experiência traumática pode implicar que as respostas ao perigo se organizem no presente, de modo que o corpo continua a responder à ameaça mesmo quando as circunstâncias originais já não estão lá. A história pode dizer-nos que estamos seguros enquanto a nossa experiência corporal ainda não acompanhou. Compreender o que aconteceu pode ser profundamente importante. Mas a compreensão, por si só, não reorganiza necessariamente um padrão. Por vezes, a cura exige uma experiência de algo a acontecer de outra maneira. Uma resposta diferente. Uma relação diferente. Uma experiência diferente das próprias sensações e limites. Uma possibilidade diferente a tornar-se real no corpo.
Se a dificuldade é o bloqueio, então a cura não tem de significar recuperar um original perdido ou instalar uma estrutura melhor e mais permanente. Pode significar restaurar o movimento: tornarmo-nos mais capazes de responder ao que está a acontecer agora. Mais capazes de acolher a experiência. Mais capazes de nos reorganizarmos quando a vida pede algo novo. A saúde deixa de ser um estado a que se chega e passa a ser uma capacidade que se desenvolve.

Isto muda as perguntas que podemos levar para a terapia. Em vez de perguntar Quem sou eu, na verdade?, poderíamos perguntar: O que está a tentar mover-se através de mim? O que se tornou rígido? O que está a pedir mais espaço? O que se torna possível se não tiver de decidir quem sou antes de experienciar o que está a acontecer? O trabalho passa a ser menos sobre encontrar uma resposta e mais sobre permanecer presente o suficiente para sentir o que está a acontecer agora.
O passado não deixa de importar. Importa menos como um lugar a que temos de regressar para recuperar o nosso eu original, e mais como um impulso que transportamos para o presente.
E aqui está o que mais demorei a compreender. Apreender a ideia de que somos fluidos e de que podemos mudar é uma coisa; vivê-la é outra completamente diferente. Posso compreender porque faço o que faço. Posso perceber de onde veio. Posso contar a história com beleza. E ainda assim dar por mim a fazer a mesma coisa no momento em que a vida toca o lugar antigo. Há uma longa distância entre saber algo sobre nós próprios e sermos capazes de viver de outra maneira.
Talvez parte dessa distância seja corporal. O insight pode dar-nos linguagem, contexto e sentido. Mas um padrão não é apenas uma história sobre o passado. É também algo que está a acontecer agora: no corpo, na sensação, na atenção, na maneira como nos aproximamos ou nos afastamos de outra pessoa. E é também agora que algo pode começar a mudar. Posso sentir a reação antiga a subir e, talvez por um instante, não me identificar por completo com ela. Posso notar o impulso de me retirar sem me fechar de imediato. Posso sentir medo sem decidir que o medo me diz quem sou e o que faço. Posso deixar uma identidade afrouxar sem me apressar a substituí-la por outra. Posso descobrir, através da experiência, que a incerteza não significa necessariamente estilhaçar-me em bocadinhos. Isto é diferente de saber algo sobre mim. Talvez seja por isto que o eu não pode ser conhecido de uma vez por todas. Tem de ser encontrado. E aquilo que encontramos nunca é exatamente a mesma coisa duas vezes.
Para mim, isto muda o significado de autenticidade. Costumava vê-la como uma lealdade a alguma verdade interior, mas talvez tenha mais a ver com atenção àquilo que está realmente a mover-se através de mim agora. O que estou a sentir? O que estou a querer? O que estou a evitar? O que está a mudar? O que finjo não saber? E manter-me perto o suficiente dessas coisas para as deixar dizer-me algo, sem as transformar numa identidade, sabendo que aquilo que é verdadeiro agora não será necessariamente toda a verdade mais tarde. É estar disposta a deixar a identidade permanecer sensível à experiência. O eu não é algo a que chego. Continua a chegar.
E não chega sozinho. Chega em relação.
Se sou um processo e não uma coisa, sou um processo que acontece em contacto: com outras pessoas, com os lugares onde vivo, com a cultura à minha volta, com as relações que convidam certas partes de mim a avançar e tornam outras mais difíceis de aceder. Quem sou não é produzido inteiramente dentro de mim. Uma pessoa pode aprender a falar com mais honestidade e regressar a uma relação que pune a honestidade. Pode desenvolver limites e regressar a um sistema familiar que vive os limites como rejeição. Pode ter menos vergonha de si própria e regressar a uma cultura que continua a dizer-lhe que não é suficiente. Não amolecemos no isolamento. Amolecemos na presença de algo que nos possa encontrar de outra maneira. Por vezes esse algo é outra pessoa. Por vezes é uma nova relação com o nosso próprio corpo. Por vezes é uma comunidade. Por vezes é a possibilidade de viver de forma diferente das condições que nos ensinaram quem devíamos ser.
É por isto que me interesso cada vez menos pela ideia de terapia como produção de um indivíduo independente e acabado. O objetivo não pode ser simplesmente tornar alguém tão seguro por dentro que já não precise de ninguém. Não fomos feitos para não precisar de ninguém. Fomos feitos para nos tornarmos mais capazes de estar em relação sem desaparecer dentro dela. Isso significa que o individual, o relacional e o coletivo não são, na verdade, problemas separados. A forma como amamos, a forma como criamos os filhos, os limites que mantemos, o trabalho que fazemos, as culturas a que pertencemos e as condições em que vivemos participam todos na forma que uma pessoa consegue sustentar. Libertar um eu e deixar o seu campo intocado tem limites que nem sempre queremos nomear. Por vezes é a pessoa que precisa de mudar. Por vezes é a relação que precisa de mudar. Por vezes é o ambiente que precisa de mudar. Muitas vezes, é uma combinação dos três.
Talvez seja esta outra razão pela qual a fantasia de um eu fixo é tão apelativa. Se o problema está inteiramente dentro de mim, então a solução também está inteiramente dentro de mim. Posso corrigir-me. Posso curar-me. Posso tornar-me melhor. Mas se o eu é relacional, então parte do que precisa de mudar não é só minha para mudar. Isto pode ser assustador ou um alívio, consoante a pessoa.
Há outra tensão que gostaria de referir. A identidade ser fluida não significa que seja sem sentido. Precisamos de nomes para as coisas. Precisamos de linguagem. Precisamos de categorias que nos permitam reconhecer-nos e encontrar-nos uns aos outros. A identidade pode limitar-nos, mas também pode abrigar-nos. Para quem foi levado a acreditar que é demais, sensível demais, difícil demais, diferente demais, encontrar um nome para a sua experiência pode ser profundamente libertador. Uma categoria pode ser uma jaula. Também pode ser uma porta.
O problema não é necessariamente ter uma identidade. É confundir uma identidade com a totalidade de uma pessoa. Posso dizer quem sou sem fingir que sei tudo o que posso vir a ser. Talvez a relação mais saudável com a identidade não seja nem o apego total nem a rejeição total. Seja sustentá-la como algo real, útil e provisório. Uma forma. Mas não uma prisão.
É por isto que me interesso cada vez menos pela pergunta Quem sou eu, na verdade? Porque ela pode levar-nos a olhar para trás, à procura de provas, e manter-nos à procura de uma imagem original que talvez nunca tenha existido da forma como imaginamos. Interessam-me mais as perguntas que não nos pedem que descubramos uma resposta final, mas que nos tornemos mais capazes de permanecer no não-saber. E talvez seja isso a maturidade: não chegar a quem se é, mas tornar-se mais capaz de permanecer em relação com quem se está a tornar.
Penso agora naquelas imagens que se dissolviam com uma espécie de ternura. Aos vinte e dois anos, julgava estar a ver uma imagem a ser destruída. Agora acho que estava a ver outra coisa. Chegou um ponto em que a imagem já não podia ser reconhecida, em que o original não podia ser recuperado e não havia nenhuma fotografia intacta à espera por baixo da distorção para eu descobrir. Mas o que restava nunca foi nada. Não havia nenhuma imagem original escondida sob a distorção, porque a distorção nunca esteve simplesmente a cobrir a imagem. Era aquilo em que a imagem se tinha tornado. E talvez um eu seja também assim.
As adaptações, os papéis, as defesas, a história, as relações, as coisas que aprendemos a fazer para sobreviver — estas não são necessariamente um disfarce sobreposto a algum eu mais verdadeiro por baixo. São parte da matéria de que o eu é feito. Moldaram os seus contornos. Deixaram marcas. Tornaram-se parte da sua maneira de se mover pelo mundo. Isto não significa que tudo aquilo em que nos tornámos precise de ser preservado. Algumas formas de nós próprios tornar-se-ão pequenas demais. Algumas identidades tornar-se-ão rígidas demais. Algumas formas de nos protegermos acabarão por impedir a própria intimidade que outrora tornaram possível. Algumas coisas terão de se dissolver. E essa dissolução pode sentir-se como perda. Podemos confundir a perda de uma forma familiar com a perda de nós próprios. Mas uma forma a desfazer-se nem sempre é prova de que algo correu mal. Por vezes significa que a forma já não consegue conter a vida que a atravessa.
Uma vida humana nunca foi um problema a resolver, nunca foi um projeto com uma linha de chegada. Não há um ponto em que nos tornemos completamente curados, completamente coerentes, completamente certos. Haverá sempre outra relação, outra perda, outro começo, outra parte de nós que ainda não conhecemos. Isto não torna o trabalho sobre nós próprios inútil — torna-o vivo. Não creio que tenhamos de escolher entre ter um eu e estar em processo. Podemos ter forma sem ter uma forma final. Podemos ter limites sem ficarmos selados. Podemos ter continuidade sem permanência. Podemos ser responsáveis sem sermos fixos. Podemos conhecer-nos sem acreditar que acabámos finalmente de nos conhecer. E talvez seja isto que eu tentava ver naquelas imagens há tantos anos: o movimento pelo qual algo permanece reconhecivelmente ele próprio enquanto continuamente se torna outra coisa.
Juntos curamos-nos.
R.


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