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Sobre
Terapia

COMO EU COMPREENDO
A TRANSFORMAÇÃO HUMANA

Há um pressuposto silencioso por baixo de grande parte daquilo que passámos a esperar da terapia: que o seu propósito é eliminar o sofrimento. Nunca o entendi dessa forma. O sofrimento não é um erro na experiência humana, nem prova de que algo correu mal connosco.
Mais frequentemente, é uma mensagem: o momento em que as formas que outrora aprendemos para sobreviver já não conseguem sustentar a vida que tentamos viver. Lido desta maneira, o sofrimento não é o inimigo da transformação. É, muitas vezes, onde a transformação começa.

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A própria transformação raramente é linear. Move-se em ciclos de expansão e contração, de clareza e de confusão necessária. Por vezes, nada parece mudar à superfície enquanto algo de essencial se reorganiza silenciosamente por baixo. Vezes sem conta, vi pessoas confundirem a quietude do processo com fracasso. Nada parece mover-se e concluem que fizeram algo de errado. Não fizeram. Um sistema vivo não se refaz em linha reta.

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Nem tão-pouco se refaz apenas através da compreensão. Podemos entender-nos infinitamente — com precisão, até com brilhantismo — e continuar a ver os nossos corpos repetir os mesmos padrões, a dar por nós nas mesmas relações, a retesar-nos das mesmas velhas maneiras. Os nossos padrões mais profundos não vivem na nossa compreensão. Vivem no corpo e no inconsciente, dois registos da mesma memória, tão entrelaçados que nenhum pode ser alcançado sem o outro: a respiração que nunca chega por completo, a musculatura que aprendeu a contrair, as conclusões silenciosas que tirámos sobre o mundo antes de termos idade para as questionar. Tudo isso foi escrito muito antes de termos palavras. Nada disso pode ser revisto só por palavras. A mudança começa quando a compreensão se torna experiência — quando o corpo é convidado para a conversa e aquilo que viveu fora da consciência pode finalmente ser sentido sem nos avassalar.

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Tenho um profundo respeito pelas formas como nos defendemos. Cada armadura com que me deparei — no meu trabalho e em mim mesma — começou como uma solução inteligente para uma situação impossível. A autossuficiência que mantém o amor à distância foi outrora a única resposta segura a um cuidado pouco fiável. A mente que nunca para de analisar foi outrora a forma que uma criança encontrou de se manter acima de um sentir insuportável. É por isto que não acredito que alguém esteja partido e por que não trato as defesas como obstáculos a desmantelar. Elas suavizam-se quando descobrem que as condições que outrora as tornaram necessárias já não são as únicas condições disponíveis. O trabalho não é travar uma guerra contra as nossas proteções, mas compreender aquilo que elas têm vindo a proteger.

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Essas condições são, acima de tudo, relacionais. As nossas formas mais precoces de nos relacionarmos connosco e com o mundo formaram-se no contacto — no espaço entre nós e as pessoas de quem dependíamos — e faz sentido que se revelem também no contacto. É por isto que vejo a terapia como uma relação viva e não como uma técnica. Os momentos de confiança e de hesitação, de proximidade e de recuo que surgem entre duas pessoas não são interferências no processo. São o processo, a acontecer ao vivo.

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O que continua a surpreender-me é como a cura é pouco dramática. Parece-se com tornarmo-nos um pouco menos defendidos, um pouco mais presentes, um pouco mais honestos. Como aprender a permanecer connosco quando a vida se torna difícil e a acolher o que aí encontramos sem violência. Estes movimentos parecem quase invisíveis de fora. Com o tempo, reorganizam algo muito mais profundo do que qualquer avanço isolado poderia.

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O que me leva a pensar que a terapia não consiste em tornarmo-nos alguém novo. Consiste em tornarmo-nos menos divididos — menos organizados em torno do medo, menos identificados com as estratégias que outrora nos mantiveram seguros, mais capazes de habitar a vida que é verdadeiramente nossa: neste corpo, nesta história, neste presente. Se a transformação se move em direção a alguma coisa, move-se em direção a uma encarnação mais plena.

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Mais de nós a chegar aqui.

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